domingo, 21 de setembro de 2014

Final do Capítulo 1 - A revelação


A avó correspondeu ao olhar da neta. E era o mesmo olhar, porque conheciam a mesma dor que machucava o coração todos os dias.

- É a sua mãe quem não fala comigo.
- Mas por quê?
- Exatamente por causa disso que nós estamos falando agora. Ela sempre quis ser uma pessoa que não era, viver uma vida que ela não tinha. Ela tinha vergonha da vida que nós, os seus pais, podíamos dar. E isso porque não faltava nada. Nunca faltou nada a ela. Mas ela sempre queria mais, mais e mais e para isso fazia qualquer coisa. Menos trabalhar. Ela até roubou uma loja uma vez para ter uma roupa que viu lá. Seu avô a fez devolver... Foi bem triste!
- E o meu pai, vó? Minha mãe nunca quis falar dele. Quem era ele?
- O seu pai era o filho do prefeito. Ela o conheceu numa festa, mas apesar de todo o dinheiro da família dele, ele não era uma boa companhia. Bebia muito, usava drogas, roubava carros, tinha sido preso duas vezes por causa disso. Mas, como era o filho do prefeito, tudo podia. E eles começaram a namorar. Seu avô quase enlouqueceu quando ficou sabendo. Brigou com ela, mas de nada adiantou. Eles continuaram a se encontrar escondidos. Até que um dia, numa festa, ele acabou batendo na sua mãe na frente de todo mundo, porque ele achou que ela estava conversando demais com outro rapaz que estava lá. Saíram no jornal as fotos dela com o rosto todo cheio de hematomas. Seu avô quando ficou sabendo foi atrás dela e a trouxe para casa. Nós a levamos ao médico, curamos os machucados, conversamos com ela, mas de nada adiantou. Ela continuou a namorar o seu pai. E apanhou de novo, mas dessa vez ela voltou para casa sozinha e o seu avô a acolheu, conversou com ela, disse que aquele rapaz não era uma boa pessoa, que algo pior poderia acontecer com ela, como ser morta, já que ficamos sabendo que ela chegou a participar de alguns roubos com ele. Mas, mais uma vez, ela nem quis ouvir. Fez as malas e foi embora.
- Foi para a casa dele?
- Eu não sei. Só sei que um dia, ela nos contou que estava grávida. E seu avô passou mal nesse dia e foi parar no hospital. Mas o que poderíamos fazer? Já estava feito. E ela nos deu essa notícia no mesmo dia que o seu pai tinha sido preso após uma briga de rua. E disse que o seu avô, o pai do seu pai, iria dar dinheiro para ela fazer um aborto. Nós imploramos para a sua mãe não fazer isso. Pedimos para ela ter a criança que o seu avô e eu cuidaríamos.
- Essa criança era eu.
- Sim. Era. O seu avô implorou para ela não fazer o aborto. Eu já não tinha mais forças, sabe? Eu estava tão cansada! Ela nos mandou ir para o inferno e pediu para que não a procurássemos mais. Mas como é que se desiste de um filho? Uma semana depois de tudo isso, o seu pai decidiu roubar outro para dar uma volta. E decidiu roubar o carro do um policial, amigo do seu avô. O seu pai estava armado. Era noite. Estava bem escuro, o homem não viu que ele era o namorado da filha do seu melhor amigo e deu-lhe um tiro na cabeça quando o seu pai anunciou o assalto. Seu pai morreu na hora. A sua mãe enlouqueceu e começou a falar que tinha sido o seu avô que havia mandando matar o namorado dela. Ela dizia isso para todo mundo. O mandato do pai dele terminou dias depois e a família inteira foi embora da cidade, deixando a sua mãe desamparada. Eu a recolhi em casa, mesmo ela não falando mais com o seu avô. Até que um dia, bem antes de você nascer, ela resolveu ir embora de casa. Disse que tinha uma amiga lá na capital que tinha ganhado um apartamento do pai e a convidou para morar com ela. Teve outra briga e o seu avô disse que aquela era a última, que se ela fosse embora não precisava mais voltar. E ela se foi, mas quando estava saindo pediu para eu ir com ela, mas eu não podia deixar o seu avô. Ele era o homem da minha vida! Você entende, Diva? – a avó perguntou como se procurasse uma aliada para a sua decisão.
- Claro que sim, vó.
- Eu não podia deixá-lo por causa das escolhas dela. Escolhas erradas.
- Claro que não!
- Mas ela nunca entendeu isso. Foi embora para capital e nunca mais falou conosco. Nunca mais. Nem quando você nasceu. Nem deixou o endereço. Nunca ligou para saber como estávamos. Nunca. Só quando o seu avô morreu. Mas eu nem sei como é que ela soube.
- Foi nessa época que vocês se mudaram para cá?
- Sim, foi. Aqui foi o único lugar que o seu avô encontrou um pouco de paz.  E foi aqui que o seu avô morreu sem nunca mais ver a sua mãe, mas com a esperança de que um dia ela iria voltar para casa. – a avó limpou uma grossa lágrima que escorreu de seus olhos. – É triste, minha neta!
- Ela nunca me contou essa história. Ela nunca quis falar nada sobre isso, nem sobre o meu pai, nem sobre vocês. Só dizia que não queria vê-los mais. Eu sinto muito por tudo isso, vó!
- Não sinta, Diva. Você não tem culpa de nada.
- Às vezes, eu acho que tenho.
- Mas não tem. Esse é um problema meu e da sua mãe, não se sinta culpada.
- Eu só queria que tudo fosse diferente, vó.
- Eu também queria, Diva. Mas eu espero que um dia ela me perdoe.
- Perdoar, o que? A senhora fez o certo. A minha mãe precisa entender que a senhora fez o certo.

Dona Alice, a avó, passou carinhosamente a mão sobre a mão da neta e lhe deu um sorriso.

- Você tem razão, Diva. Eu não podia abandonar o homem da minha vida por causa dos erros da sua mãe. É uma pena que ela não entenda isso e talvez nunca venha a entender porque ela nunca soube o que é o amor. Porque o amor é respeito, dedicação, é carinho, é atenção, é cuidado. O amor é belo! E com o seu pai a sua mãe nunca conheceu isso. Não existe amor nas condições que ela vivia. Apanhando. Se o seu pai a amasse, não bateria nela, a trataria bem. Porque o amor nos transforma numa pessoa melhor. Muda as nossas vidas para uma vida melhor. Se o que estamos sentindo nos faz uma pessoa pior é qualquer outra coisa, menos o amor. Porque o amor, Diva, vem de Deus! Se esse amor não lhe trouxer alegria, paz, então não é o amor verdadeiro.

Diva achou aquelas palavras tão bonitas e preferiu com um sorriso por um ponto final na conversa. Secou mais uma vez os olhos com as mãos e ajeitou os cabelos enquanto observava o rosto cansado da avó.
O amor era mesmo belo e tudo aquilo que  a avó tinha lhe dito. E qualquer outra coisa diferente disso não podia ser mesmo o amor.
Abaixou-se e apanhou a mala no chão e subiu com a avó as escadas.

4 comentários:

  1. Nossa, Muito bom! A cada dia fica mais interessante ;)

    ResponderExcluir
  2. ... Porque o amor nos transforma... Porque o amor vem de Deus... Ah que lindas palavras!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, linda é tu, Pri!!!!
      Muito obrigada pelo apoio!!!
      Beijos!

      Excluir