sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Capítulo 3 - Música alta, conversas com a avó, o Relicário



     Passava da meia noite quando Diva e a avó resolveram se deitar. Ela estava cansada da viagem e percebeu que a avó estava cansada também, mas ainda tinham tanto o que conversar! Mas era melhor deixar para o outro dia.
     Diva se jogou na cama, sentindo-se tão leve. Como era bom abrir o coração! Parecia que naquele momento todos os seus problemas tinham ido embora. Mas sabia que não era bem assim, quando encontrasse o noivo, dali a poucos dias, e enfrentaria também a fúria de sua mãe, que com certeza não se cansaria de dizer que ela tinha feito a pior burrada de sua vida, como sempre fez e blá blá blá...  Mas só queria pensar nisso depois. Só depois...
    Pela janela do quarto uma brisa refrescava o quarto. Deitada na cama olhava o céu meio nublado, poucas estrelas. Decidiu que iria dormir com a janela aberta mesmo e levantou-se, enquanto esperava o sono chegar, para olhar a cidade, a Torre e o casarão. Apenas uma janela velha estava aberta. Como seria a vida daquela pessoa que morava ali? Como ele devia ser? Velho rabugento? Por que deixou a casa ficar daquele jeito como se estivesse abandonada? Era curioso...
     Mais ao longe, Diva olhou a Torre Eiffel toda iluminada. Tão linda! E prometeu que no outro dia cedo iria visitá-la, mas no fim da tarde, quando as luzes coloridas deixavam-na tão romântica! Mas por agora, queria dormir. O sono chegou. Saiu da janela, vestiu sua velha camiseta que gostava para dormir, apagou as luzes e se jogou na cama. Ah, como era bom! Cama tão macia. Corpo e alma tão leves.
     Mas no meio do silêncio bom uma música alta vinda do lado de fora invadiu o quarto. E ninguém se incomodava com aquela musica tão alta em plena madrugada? Passava da uma da manhã. Se fosse na capital, com certeza, já teriam chamado a polícia, Diva pensou, prestando atenção na música que não conhecia. Mas ali, na Pequenaparis todos continuavam dormindo, pareciam acostumados. Nem um vizinho xingou. Nem uma luz se acendeu. A música vinha do casarão. A mesma música que acabava e começava, acabava e começava, sem fim... E apesar do barulho todo, voltou a pegar sono.
     Só acordou quando um cheiro gostoso de feijão temperado perfumou o seu quarto. Era quase meio-dia. Quase meio-dia? Sim, quase meio-dia. Não acreditou que tivesse dormido tanto! Há quanto tempo não fazia isso?  Trocou de roupa, escovou os dentes, penteou os cabelos e desceu para a cozinha, onde a avó e uma amiga conversavam.

- Bom dia! – ela disse às duas senhoras.
- Bom dia! – a avó e a amiga responderam juntas e a avó acrescentou: - Diva, essa é a minha amiga, Doralice.
- Como vai menina bonita? – A senhora simpática, de cabelos cinza e rosto de anjo lhe estendeu a mão.

    Diva sorriu e completou:

- Doralice e dona Alice. Isso é que é amizade. Até os nomes são parecidos.
- Você viu? - Doralice sorriu. - E você é muito bonita! Parece até artista de cinema.
- É bondade da senhora! – Diva corou.
- Não é não. Eu não sou bondosa. Estou falando a verdade. Você é solteira?
- Quase... – Diva respondeu olhando para a avó, que lhe deu uma piscadinha.
- Quase solteira? Como é isso? – perguntou a mulher curiosa.
- É uma longa história, Dora. – a avó respondeu. – Coisas desses jovens! – piscou novamente para a neta. – Você me ajuda a terminar o almoço, Dora. 
-  Claro. Ajudo sim. Eu fiz uma torta deliciosa de chocolate, vou buscar lá em
casa. Volto já.
Gostei dela. – Diva falou, bocejandoo.
- Ela é um doce de pessoa. É minha melhor amiga. – a avó apanhou uma jarra
de suco de laranja na geladeira para oferecer a neta.
Não vó, obrigada! Eu vou esperar o almoço.
- Você dormiu bem?
- Eu demorei para pegar no sono com aquela música alta... – puxou uma
cadeira, sentou-se.
- Ah, eu me esqueci de te avisar. De vez em quando o Julian faz isso.
- Julian é o homem do casarão, não é?
- É, ele mesmo. De vez em quando liga o rádio alto para ouvir Marvin Gaye.
- Marvin Gaye?
- Sim, o cantor que ele ouviu ontem. E sempre. – a avó sorriu.  Ele só escuta Marvin Gaye. Na verdade, só aquela música...
Mas, por quê?
- Não sei, Diva.
- Vó, me fala dele. Eu fiquei curiosa.
         
D. Alice mexeu a comida na panela, tampou-a em seguida, depois puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da neta.

- Eu não sei muito a respeito dele, Diva. Na verdade, eu sei somente o que a cidade comenta, porque eles não eram muito sociáveis. Mas, foi o bisavô dele quem fundou essa cidade quando ele veio de Paris para cá. Era um empresário de sucesso. Depois o que eu sei é que nessa casa, moravam o Julian, o pai e a mãe. A mãe dele se matou quando ele ainda era criança, o pai enlouqueceu e mais tarde morreu, mas como quase nunca saíam de casa, só ficamos sabendo da morte meses depois. Ele se casou com uma moça muito bonita. Ela eu conheci e tiveram uma filha que morreu a uns anos atrás de câncer. A esposa desapareceu. Acho que eles se separaram. Ele ficou sozinho no casarão. A história toda não conhecemos. Ele não tem amigos, de vez em quando sai para dar umas voltas pela cidade... Mas sempre sozinho...
- Nossa, que história!
- É triste, né? Mas cada um de nós tem nosso punhado de provações aqui nesta vida, não é mesmo? Todo mundo tem a sua cruz para carregar.
- É verdade. – Diva se levantou quando ouviu o portão se abrir e olhou pela janela para ver quem era. Era a Doralice que entrava com sua torta de chocolate  acompanhada de um senhor de bigodes com uma pasta mão.
- Alice, esse é o Sr. Fontes. – Doralice apresentou o homem que estendeu a mão para a avó que o convidou para entrar.

Diva olhou-o, curiosa. Sentaram-se todos na sala.


Eu já expliquei para o Sr. Fontes, Alice, que o valor é aquele mesmo. - Doralice iniciou a conversa.
- É verdade – respondeu a avó. – O preço é aquele mesmo que eu lhe passei pelo telefone, Sr. Fontes.
- Preço do que? – Diva se intrometeu, quando o homem se preparava para responder. – O que está à venda?
- O sebo? – Doralice respondeu.
-  Que sebo?
O Relicário. O sebo do seu avô.
- Eu me esqueci de lhe dizer, não é Diva? – falou a avó. – O Relicário, como a Dora disse, é o sebo que seu avô deixou e...
- E que a senhora está vendendo... – Diva completou.
- Sim.
- Mas, por quê? – ela se levantou. - Por que a senhora o está vendendo?
- Porque eu já estou velha, Diva, e não posso cuidar dele.
- Mas vender, vó?
- Sim, eu ia mandar o dinheiro da venda para você...
- Não! Eu não estou precisando de dinheiro, vó. Sr. Fontes, o sebo não está à
venda.
 Mas, Diva?
É isso mesmo. Não está à venda, Sr. Fontes.
       
Diva abriu a porta para o homem ir embora e saiu junto com ele. Doralice e Dona Alice acompanharam a moça curiosa, que nem sabia onde ficava o tal sebo, mas saiu procurando-o mesmo assim. A cidade não era tão grande. Logo o encontraria.
Mas não precisou caminhar muito, lá na frente, uma casa pequena pintada de azul celeste e uma varandinha branca, com uma placa torta pregada na porta: “Bem vindo ao Relicário.”, tocou o coração de Diva de uma maneira que ela sentiu-se arrepiar. Os olhos marejaram e sentiu um calor invadir o coração. A avó abriu a porta. E ela foi a primeira a entrar.
     Logo na entrada estavam as prateleiras, mais de oito, cheias até em cima de livros finos, grossos, velhos, novos, pequenos, grandes, de todas as cores e tamanhos. Do outro lado, um pequeno balcão com mais livros, mas bem mais velhos do que todos os outros que estavam nas prateleiras.


Seu avô consertava os livros que estavam muito velhos. – a avó explicou.

Diva assoprou o pó de cima de alguns deles e continuou observando tudo o que tinha ali como algumas cadeiras e mesas amontoadas em um canto.


Essas mesas ficavam ali fora, na varandinha, não é, Alice?  – falou Dora.
- É sim. – a avó respondeu com saudades nos olhos.
     
Diva sorriu para ela e parou em frente a um quadro com a fotografia de um senhor branco de olhos pretos e cabelos grisalhos.


É o meu avô? – Diva tocou o quadro.
- Você não se lembra dele, não é? – a avó se aproximou.
- Não, eu só me lembro do caixão e das flores porque eu não olhei para ele. Eu não queria guardar para sempre a imagem dele no caixão. E minha mãe não tem nenhuma foto de vocês. Não que eu saiba. Ele era muito bonito!
- Era sim. O mais bonito! – a avó também passou a mão na fotografia e sorriu.

Diva balançou a cabeça concordando com a avó enquanto folheava um livro. Guardou-o em seguida. E foi só nessa hora que elas se deram conta de que a Doralice tinha ido embora. Quis deixá-las a sós. Diva ainda tinha tanto o que saber sobre aquela senhora magrinha de cabelos grisalhos e olhos tão doces e carinhosos!


Vó, a senhora não pode vender esse lugar. – insistiu no assunto.
- Diva, eu já estou muito velha, eu não tenho como cuidar disso.
- Mas isso aqui é tão... – Diva olhou todo o ambiente. – É tão... – faltaram-lhe as palavras certas. – É como se o vô estivesse aqui.
- É, eu sei. Ele amava esse lugar. Passava o dia todo aqui.
- Então, vó... Eu não acho certo vender.
- Mas tenho certeza de que ele ficaria muito triste se soubesse que esse lugar está abandonado.
- Eu vou dar um jeito, vó. Mas não vai vender não. Eu vou fazer uma faxina aqui e amanhã mesmo eu o reabrirei. Depois quando eu for embora, eu penso no que vou fazer. Talvez, eu contrate alguém para ficar aqui. Que tal?
- Diva, não sei se é...
- É, sim, vó. Confia em mim.
- Eu confio, menina! – a avó lhe deu um abraço. – É claro que eu confio.Mas...
- Mas nada, dona Alice. Eu vou agora mesmo buscar balde, sabão, pano de chão e começar a limpeza.
- A teimosia você herdou da sua mãe, Diva!
- Pelo menos uma coisa, não é? – Diva sorriu. – A senhora não precisa se preocupar, eu dou um jeito na bagunça aqui sozinha.
- Então, já que eu não tenho escolha, eu vou fazer os bolos para amanhã.
- Bolos?
- Sim, seu avô vendia bolos aqui. O pessoal sentava ali nas mesas da varandinha, lendo o jornal do dia ou um belo livro enquanto se deliciavam com um pedaço de um dos meus famosos bolos de chocolate e morango.
- Hum! Já me deu até água na boca.
- Mas depois do almoço, não é Diva? Você almoça e depois vem para cá. Vamos para casa agora.

2 comentários:

  1. Só hoje pude ler os capítulos q faltava estou amando! E também muito curiosa pra ler os próximos capítulo...

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