terça-feira, 23 de setembro de 2014

Capítulo 2 - Conversa na cozinha II - Por que eu amo você?



Diva deixou o prato escorregar da mão que bateu na pia e se quebrou.

- Se machucou? - a avó jogou o guardanapo em cima da mesa e foi para perto dela.
- Não, eu estou bem. – recolheu os pedaços do prato e jogou-os no lixo, mas sem encarar a avó.
- Diva, podemos conversar sobre isso?
- Sobre o prato?
- Não, Diva, esse prato não tem a menor importância. – Dona Alice encostou-se ao lado dela na pia. – Eu estou falando de você. Olha para mim. - Diva demorou um pouco para olhar, mas o fez como uma menina obediente.
- Vó, aquele dia que eu escrevi a carta... - se afastou. -... Eu estava chateada com um monte de coisas, foi só um desabafo. Eu estava me sentindo sozinha. Não precisa se preocupar.
- E o que mudou de lá para cá?
- Como assim?
- Diva, você realmente ama esse rapaz?

Diva caminhou até o armário e encostou cruzando os braços.

- Eu não sei se eu amo. Eu acho que eu gosto dele. – completou.
- Gosta? Diva, gostar é muito pouco.
- Mas a senhora concorda comigo que com o tempo o amor pode vir?
- Mas pode não vir, minha neta. – caminhou até ela. – Não dá para brincar de “roleta russa” com uma decisão tão séria. Menos do que o amor, Diva, para um casamento é infelicidade para uma vida inteira. Casamento é uma coisa séria. A gente tem que estar feliz com essa decisão. Tem que estar certa disso. Ou então, nem adianta se casar.
- Mas se não der certo, separa, todo mundo faz isso.
- Sim. Mas é isso o que você quer?

Diva preferiu não responder. Olhou para o chão.

- Para se casar, Diva, é preciso amar, querer ficar perto, sentir a falta um do outro. Quando eu estava para me casar, o meu pai um dia, entrou no meu quarto e me perguntou por que eu queria me casar, por que eu amava o seu avô. E eu pensei muito nisso, e então, meu pai me pediu para escrever uma carta chamada: “Por que eu amo você?” E eu escrevi essa carta e percebi que eu amava o seu avô porque ele sempre olhava dentro dos meus olhos quando estávamos conversando, porque quando eu estava angustiada, preocupada, ele encostava a ponta do nariz no meu e falava: “eu estou aqui!”. E eu sabia que ele estava mesmo. Eu nunca me senti só enquanto ele esteve vivo. Eu o amava porque quando ele comia manga, sempre enfiava todo o caroço dentro da boca e vinha todo lambuzado para me dar um beijo, mas isso ele nunca conseguiu porque eu tenho alergia a manga. – sorriu, com um olhar de saudades. – O meu amor nunca diminuiu. Ele só aumentou a cada dia. E é desse amor que eu estou falando, Diva. Do verdadeiro amor, não da imitação. Do amor que suporta a perda de um filho, uma doença, as tristezas, desse amor que é divino. – segurou na mão da neta e conduziu-a até o sofá. Sentou-se ao lado dela, ainda segurando em suas mãos e olhou dentro dos olhos escuros e cheios d’água da menina e aconselhou: - Faz a carta, então? Por que eu amo você?
- Não sei não, vó. Eu não sou muito boa para escrever essas coisas.
- Não precisa. Quem vai ditar é o seu coração. E quando é ele que dita não há nada que não fique bonito!

Diva deu um pequeno sorriso e limpou as lágrimas quentes que escorriam em seu rosto.

- Diva, eu sinto que eu tenho que lhe dizer isso. – a avó apertou forte a mão dela e encarou-a. - Você não precisa se casar com alguém que não ama.

E ela sabia disso. Sempre soube. Mas nunca tinha ouvido alguém lhe dizer. Nunca! E ao encontrar consolo e apoio na avó, respondeu em prantos:

- Mas eu não posso, vó!
- Não pode? Como não pode? Diva, o que está acontecendo?

Mas, Diva não conseguia falar. Seu choro de anos que ficara guardado veio de uma vez, tão forte que no mesmo instante lhe trouxe uma enorme dor de cabeça. Ela cobriu os olhos com as mãos enquanto a avó tentava lhe acalmar lhe oferecendo um copo com água, o colo e o ombro amigo. E Diva queria falar, gritar se preciso fosse tudo o que estava preso em sua garganta. Desabafar.

 - A minha mãe teve a sorte de ter uma mãe compreensiva, que se importava de verdade com a felicidade dela como a senhora, mas eu não. – secou os olhos. Os lábios tremiam. D. Alice franziu a testa.  – Como eu disse, ela nunca se importou comigo. Eu sempre me esforcei, vó, para que ela, pelo menos uma vez, me notasse, mesmo eu não sendo tão bonita como as filhas das amigas dela, mesmo eu não sendo tão fútil como elas. Eu sempre me esforcei para que ela olhasse para mim. Então, um dia eu a ouvi conversando com uma amiga e ela dizia que queria muito que eu fosse advogada, porque era chique, mas que eu tinha escolhido cursar pedagogia, que vergonha, onde já se viu querer ser a professora do primário e ganhar uma miséria de salário. Imediatamente, eu abandonei o meu curso de pedagogia que eu tanto amava e fui fazer direito.  E eu odeio direito. Odeio. Mas estou fazendo que é para ver se ela presta atenção em mim, mas não, ela não se importa. Ela não se importa, vó. – tomou mais um gole de água. - Um dia, teve o aniversário de uma amiga dela e eu fui obrigada a ir. E lá, eu fui apresentada ao Marcelo, neto de um empresário muito, muito rico.
- Eu já sei o que você vai me dizer... – a avó tomou a água com açúcar que trouxera para a neta.
- Minha mãe e a amiga me empurraram para cima do Marcelo, mas eu não queria nada com ele. Ele estava fedendo a bebida, era chato, pegajoso, arrogante e burro... E ficou no meu pé a festa toda por insistência dessa amiga da minha mãe. Mas eu fugi dele a noite inteira. Na volta para casa, a minha mãe quis saber o que eu tinha achado dele e eu respondi que tinha nojo, ela então gritou, dentro do carro, na frente da amiga dela e da filha dessa mulher: “– E aonde você acha que vai encontrar alguém melhor que o Marcelo? Você acha mesmo que os “boas pintas” de verdade, vão se interessar por você? O Marcelo pode não ser bonito mas pode te dar uma boa vida. Ele é sua única oportunidade, será que você não consegue enxergar isso? Você teve sorte de ele ter olhado para você com tantas mulheres lindas naquela festa. Aonde é que você vai arrumar um homem para casar com esse jeito insuportável? Isso sem falar que você não é bonita.“  Aquilo me feriu tanto, vó,  me humilhou tanto que eu nem consegui responder nada, fui calada para casa me sentindo a pior pessoa do mundo e chorei o final de semana todo.  Mas na segunda-feira eu tinha tomado uma decisão. Eu liguei para o Marcelo e disse que queria sair com ele, marcamos um encontro e estamos juntos já faz mais de 6 meses. Minha mãe tem orgulho disso. Ela pressionou para sair casamento. Outro dia até me aconselhou a engravidar, disse que ter um filho seria garantia de uma pensão gorda para o resto da vida. Vive dizendo que a filha dela vai se casar com o neto de um ministro, filho do empresário tal cheio da grana. A senhora entende agora? - Diva inspirou alto quando terminou de falar e abaixou a cabeça voltando a chorar.

Dona Alice ficou quieta um tempo, pensativa, olhando fixamente para a neta. Secou os olhos porque chorava também, não estava surpresa, mas desapontada. Esperava que o tempo e a maturidade conseguissem ensinar a sua filha o que ela não conseguiu, mas a Sônia não tinha mudado. Por causa do maldito dinheiro, colocava à venda a própria filha. A felicidade dela.

- Ela não tem esse direito. A sua mãe é uma pessoa infeliz, você não deve ser. Eu te entendo, você fez tudo isso porque quis fazer a sua mãe feliz, mas agora Diva, é a sua felicidade que está em jogo. E a Sônia não está preocupada com isso, mas você tem que estar. Você não pode cometer os mesmos erros que ela, isso tem que acabar aqui, minha filha. Você sabe agora que não precisa se casar com esse rapaz que tem nojo, não sabe? Você não gosta dele e é isso o que importa. Você não gosta da sua faculdade e é isso o que importa. Você tem que ser feliz, Diva, e é isso o que importa. Você não pode matar os seus sentimentos e nem permitir que alguém faça isso. Você tem o direito e vai amar alguém de verdade e é isso o que importa. Você que é importante nessa história toda, Diva, você me entende? - A avó se aproximou e lhe deu um forte abraço. - E o que você pretende fazer com esse casamento, Diva?
- Eu não sei. Vó, eu não posso simplesmente chegar e dizer que acabou.
- Claro que pode!
- Os convites já foram distribuídos, a festa, o vestido já está pronto e...
- E daí, Diva? É a sua felicidade que está em jogo, minha neta! Ela vale só os preços dos convites, do vestido, da festa?
- Não.
- Então, o que você pretende fazer com esse casamento, Diva?
- Eu não vou me casar com ele, vó. Mas eu também não posso ligar para ele agora e terminar tudo assim, por telefone. Eu vou esperar até a semana que vem, quando ele voltar e aí eu lhe explico tudo.
- Se você prefere assim. E se precisar de mim para dar um bom conselho para ele e umas boas palmadas na sua mãe pode contar comigo.
- Eu sei que eu posso, vó. – Diva finalmente sorriu.
- Agora acalma esse coração e vem cá, me dá outro abraço.- Eu sei que eu posso, vó. – Diva finalmente sorriu.
- Agora acalma esse coração e vem cá, me dá outro abraço.

Nenhum comentário:

Postar um comentário