A
avó correspondeu ao olhar da neta. E era o mesmo olhar, porque conheciam a
mesma dor que machucava o coração todos os dias.
- É a sua mãe quem não fala comigo.
- Mas por quê?
- Exatamente por causa disso que nós
estamos falando agora. Ela sempre quis ser uma pessoa que não era, viver uma
vida que ela não tinha. Ela tinha vergonha da vida que nós, os seus pais,
podíamos dar. E isso porque não faltava nada. Nunca faltou nada a ela. Mas ela
sempre queria mais, mais e mais e para isso fazia qualquer coisa. Menos
trabalhar. Ela até roubou uma loja uma vez para ter uma roupa que viu lá. Seu
avô a fez devolver... Foi bem triste!
- E o meu pai, vó? Minha mãe nunca quis
falar dele. Quem era ele?
- O seu pai era o filho do prefeito. Ela o
conheceu numa festa, mas apesar de todo o dinheiro da família dele, ele não era
uma boa companhia. Bebia muito, usava drogas, roubava carros, tinha sido preso
duas vezes por causa disso. Mas, como era o filho do prefeito, tudo podia. E
eles começaram a namorar. Seu avô quase enlouqueceu quando ficou sabendo.
Brigou com ela, mas de nada adiantou. Eles continuaram a se encontrar
escondidos. Até que um dia, numa festa, ele acabou batendo na sua mãe na frente
de todo mundo, porque ele achou que ela estava conversando demais com outro
rapaz que estava lá. Saíram no jornal as fotos dela com o rosto todo cheio de
hematomas. Seu avô quando ficou sabendo foi atrás dela e a trouxe para casa.
Nós a levamos ao médico, curamos os machucados, conversamos com ela, mas de
nada adiantou. Ela continuou a namorar o seu pai. E apanhou de novo, mas dessa
vez ela voltou para casa sozinha e o seu avô a acolheu, conversou com ela,
disse que aquele rapaz não era uma boa pessoa, que algo pior poderia acontecer
com ela, como ser morta, já que ficamos sabendo que ela chegou a participar de
alguns roubos com ele. Mas, mais uma vez, ela nem quis ouvir. Fez as malas e
foi embora.
-
Foi para a casa dele?
-
Eu não sei. Só sei que um dia, ela nos contou que estava grávida. E seu avô
passou mal nesse dia e foi parar no hospital. Mas o que poderíamos fazer? Já
estava feito. E ela nos deu essa notícia no mesmo dia que o seu pai tinha sido
preso após uma briga de rua. E disse que o seu avô, o pai do seu pai, iria dar
dinheiro para ela fazer um aborto. Nós imploramos para a sua mãe não fazer
isso. Pedimos para ela ter a criança que o seu avô e eu cuidaríamos.
-
Essa criança era eu.
-
Sim. Era. O seu avô implorou para ela não fazer o aborto. Eu já não tinha
mais forças, sabe? Eu estava tão cansada! Ela nos mandou ir para o inferno e
pediu para que não a procurássemos mais. Mas como é que se desiste de um filho?
Uma semana depois de tudo isso, o seu pai decidiu roubar outro para dar uma
volta. E decidiu roubar o carro do um policial, amigo do seu avô. O seu pai
estava armado. Era noite. Estava bem escuro, o homem não viu que ele era o
namorado da filha do seu melhor amigo e deu-lhe um tiro na cabeça quando o seu
pai anunciou o assalto. Seu pai morreu na hora. A sua mãe enlouqueceu e começou
a falar que tinha sido o seu avô que havia mandando matar o namorado dela. Ela
dizia isso para todo mundo. O mandato do pai dele terminou dias depois e a
família inteira foi embora da cidade, deixando a sua mãe desamparada. Eu a
recolhi em casa, mesmo ela não falando mais com o seu avô. Até que um dia, bem
antes de você nascer, ela resolveu ir embora de casa. Disse que tinha uma amiga
lá na capital que tinha ganhado um apartamento do pai e a convidou para morar
com ela. Teve outra briga e o seu avô disse que aquela era a última, que se ela
fosse embora não precisava mais voltar. E ela se foi, mas quando estava saindo
pediu para eu ir com ela, mas eu não podia deixar o seu avô. Ele era o
homem da minha vida! Você entende, Diva? – a avó perguntou como se procurasse
uma aliada para a sua decisão.
- Claro que sim, vó.
- Eu não podia deixá-lo por causa das escolhas
dela. Escolhas erradas.
- Claro que não!
- Mas ela nunca entendeu isso. Foi embora
para capital e nunca mais falou conosco. Nunca mais. Nem quando você nasceu.
Nem deixou o endereço. Nunca ligou para saber como estávamos. Nunca. Só quando
o seu avô morreu. Mas eu nem sei como é que ela soube.
- Foi nessa época que vocês se mudaram para
cá?
- Sim, foi. Aqui foi o único lugar que o
seu avô encontrou um pouco de paz. E foi
aqui que o seu avô morreu sem nunca mais ver a sua mãe, mas com a esperança de
que um dia ela iria voltar para casa. – a avó limpou uma grossa lágrima que
escorreu de seus olhos. – É triste, minha neta!
- Ela nunca me contou essa história. Ela
nunca quis falar nada sobre isso, nem sobre o meu pai, nem sobre vocês. Só
dizia que não queria vê-los mais. Eu sinto muito por tudo isso, vó!
- Não sinta, Diva. Você não tem culpa de
nada.
- Às vezes, eu acho que tenho.
- Mas não tem. Esse é um problema meu e da
sua mãe, não se sinta culpada.
- Eu só queria que tudo fosse diferente,
vó.
- Eu também queria, Diva. Mas eu espero
que um dia ela me perdoe.
- Perdoar, o que? A senhora fez o certo. A
minha mãe precisa entender que a senhora fez o certo.
Dona
Alice, a avó, passou carinhosamente a mão sobre a mão da neta e lhe deu um
sorriso.
- Você tem razão, Diva. Eu não podia
abandonar o homem da minha vida por causa dos erros da sua mãe. É uma pena que
ela não entenda isso e talvez nunca venha a entender porque ela nunca soube o
que é o amor. Porque o amor é respeito, dedicação, é carinho, é atenção, é
cuidado. O amor é belo! E com o seu pai a sua mãe nunca conheceu isso. Não
existe amor nas condições que ela vivia. Apanhando. Se o seu pai a amasse, não
bateria nela, a trataria bem. Porque o amor nos transforma numa pessoa melhor.
Muda as nossas vidas para uma vida melhor. Se o que estamos sentindo nos faz
uma pessoa pior é qualquer outra coisa, menos o amor. Porque o amor, Diva, vem
de Deus! Se esse amor não lhe trouxer alegria, paz, então não é o amor verdadeiro.
Diva
achou aquelas palavras tão bonitas e preferiu com um sorriso por um ponto final
na conversa. Secou mais uma vez os
olhos com as mãos e ajeitou os cabelos enquanto observava o rosto cansado da
avó.
O
amor era mesmo belo e tudo aquilo que a avó tinha lhe dito. E qualquer outra
coisa diferente disso não podia ser mesmo o amor.
Abaixou-se
e apanhou a mala no chão e subiu com a avó as es
Nossa, Muito bom! A cada dia fica mais interessante ;)
ResponderExcluirMuito obrigada, minha amiga!!!
ExcluirBeijinhos!!!
... Porque o amor nos transforma... Porque o amor vem de Deus... Ah que lindas palavras!
ResponderExcluirAh, linda é tu, Pri!!!!
ExcluirMuito obrigada pelo apoio!!!
Beijos!