- Este era para ser o quarto da sua mãe. – a avó abriu a porta do segundo cômodo no andar superior. – Se um dia ela tivesse voltado...
O quarto não era muito grande. Tinha uma
cama de casal, um guarda roupas, uma estante com alguns poucos livros e uma
imensa janela de madeira que Diva abriu imediatamente para clarear o lugar. E
se sentiu privilegiada com a vista da cidade. Dava para ver a réplica da Torre
Eiffel que com o cair da noite já começava a ficar iluminada, uma linda praça
cheia de crianças brincando decorada por dois lindos pés de ipês amarelos e na
frente da casa da sua avó um imenso casarão. A penumbra do anoitecer deixava-o
com o ar assustador. Talvez por ser muito antigo. Talvez por estar com as
paredes cheias de musgo. Talvez por causa daquela imensa árvore que ficava
entre o jardim e a calçada de tão grande que era. Era tão bela com suas folhas
tão verdes e parecia ser a única coisa viva daquele lugar! O jardim um dia
tivesse sido bonito: a grama estava seca e tinham muitas folhas e galhos secos
no chão. O portão de ferro enferrujado com algumas grades retorcidas. Como pode
não tê-lo visto assim que chegou à cidade?
- Quem morava ali, vó? – Diva apontou para
o casarão.
- Quem mora.
- Ainda mora gente ali? – assustou-se.
- Sim. O último Chatêau. O último
descendente dos fundadores dessa cidade.
- Nossa! Mas parece abandonado.
- Parece mesmo. Mas não está não. – a avó
aproximou-se dela na janela. – Ele ainda mora aí. Não sei se está em casa
agora, mas mora aí.
- Ele mora sozinho?
- Mora sim.
- Mas por quê? O que aconteceu com todo
mundo?
- Ah, Diva é uma longa história. Eu te
conto depois. O jantar já está pronto, eu vou servir a mesa enquanto você toma
um banho. Ali está o banheiro. – apontou para uma porta entreaberta do outro
lado do quarto. - No guarda roupas tem toalhas. Te espero lá embaixo, está bem?
- Dona Alice deu um beijo nos cabelos da neta e lhe disse carinhosamente: -
Obrigada por ter vindo, Diva! Agora eu já posso morrer em paz.
-
Morrer? – Diva sorriu com a brincadeira. – Nem brinca com uma coisa dessas, vó.
Dona
Alice sorriu e fechou a porta deixando-a sozinha.
Diva
voltou a debruçar na janela sentindo uma paz lhe invadir o coração. Como raras
vezes sentiu em sua vida! Um sentimento tão doce que desejou com todas as
forças que durasse para sempre. E era tão simples. Era isso a vida. Simples.
Era estar perto de quem se ama. É sentir o amor com uma palavra bonita, com um
carinho, com um sorriso, com uma flor na janela lhe dando boas vindas.
De
repente uma gota de chuva lhe molhou a ponta do nariz, Diva olhou para o céu e
viu não era só a noite que vinha chegando, mas uma boa chuva que escureceu o
céu. Saiu da janela e olhou para o casarão quando uma das janelas acabava de
ser fechada. Não viu ninguém, apenas a imensa janela de madeira que fez barulho
quando fechou. Mas não estava ventando. Será que aquele lugar também era mal
assombrado?
A
chuva caía forte, mas continuava quente. Por isso, enquanto jantavam a avó
trouxe para a sala de jantar um pequeno ventilador. Mas o que ajudou a
refrescar mesmo foi o gostoso pudim de chocolate que Dona Alice tinha preparado
com calda de morango. Há quanto tempo Diva não comia uma comida tão gostosa
assim? Nem conseguia se lembrar. Com a sua vida tão corrida, com seu emprego, a
faculdade, cursos, o casamento o que menos tinha era tempo de cozinhar. A mãe
não gostava de cozinhar, ela então se virava na maior parte do tempo com comidas
congeladas ou fast-food. Sabia que não fazia bem, mas seu tempo era tão curto
que na maioria das vezes não lhe sobrava nem tempo para comer, por isso, havia
perdido 3 quilos no último mês. Por um lado era bom estar mais magra. Toda
noiva tem que ser magra, a mãe repetia todos os dias, mas sabia que não estava
perdendo peso de forma saudável e logo sentiria os efeitos de não estar se
cuidando.
-
Nossa, comi tanto que estou até triste! – brincou ao engolir o último pedaço do
pudim.
-
Que bom que você gostou! – a avó recolheu os pratos da mesa.
-
E tem como não gostar dessa comida maravilhosa, vó? Eu nunca comi uma comida
tão gostosa como essa! – Diva se levantou e ajudou a recolher os pratos também.
E se ofereceu para lavar a louça enquanto a avó trazia os pratos sujos que
faltavam.
-
Diva, eu sou uma pessoa muito curiosa.
-
É mesmo? – Diva sorriu.
-
Mas acho que curiosa não é a palavra certa aqui. Quando você me escreveu aquela
carta eu fiquei preocupada, porque a gente só pede um tempo, como vocês jovens
dizem, numa relação quando ela já não está mais do jeito que nos faz feliz ou
porque estamos precisando de coragem pra terminar tudo, não é assim? E você
disse que precisava ficar longe um pouco da sua mãe, do seu trabalho, da
faculdade. Até aqui eu entendo. Mas do seu noivo? Do seu noivo, Diva?
Diva
deixou o prato escorregar da mão que bateu na pia e se quebrou.

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