sábado, 20 de setembro de 2014

2ª parte - A casa da avó - A busca das respostas


Os olhos da Diva encheram d’água quando ela percebeu que a distância e os anos não fizeram o amor que sentia pela a avó diminuir. Como amava aquela mulher que só viu uma única vez, mas que nunca saiu do seu pensamento!  Quantas vezes “fugiu para a casa da avó”, na sua imaginação nas horas que sentia medo, tristeza, raiva, angústia, solidão! Quantas vezes suas angústias cessaram ao lembrar-se do sorriso da avó! Quantas vezes seu medo cessou ao imaginar a avó lhe dizendo palavras de conforto! Quantas vezes sonhou com aquela casa! E como nos seus sonhos, tinham flores nas janelas e móveis de madeira, muitos quadros nas paredes, de parentes que ela não conhecia, paisagens pintadas, vasos de flores por todos os lados, um pequeno aquário com dois peixinhos, uma cadeira de balanço. Será que toda casa de avós tem cadeira de balanço? Não era uma casa grande, não era uma casa chique, era simples, mas era tão acolhedora! Tão diferente do apartamento frio e sem graça que dividia com a mãe na capital.
     Perto da escada de madeira que conduzia para o andar superior, um quadro lhe chamou a atenção. Reconheceu logo que era a fotografia da sua mãe. Sempre ouvia as pessoas lhe dizerem o quanto eram parecidas, mas só agora que viu a mãe mais jovem, é que pode perceber que era mesmo verdade. Os mesmos olhos pretos vivos, o mesmo nariz, a mesma boca, o mesmo sorriso e até a mesma pinta na ponta do nariz que a mãe tanto odiava.

     - Vocês são mesmo muito parecidas! – a avó confirmou. – Parece que estou vendo a Sônia aqui na minha frente agora. E ela como está, Diva?    
     - Bem. – Diva passou a mão em um dos quadros e sentou-se em um degrau da escada.

A avó se aproximou dela.

     - Diva, faz mais de dez anos que eu não vejo a sua mãe, na verdade, mais de dez anos que eu nem tenho notícias dela e a única coisa que você me diz é, bem? – a avó lhe fez um carinho nos cabelos e sorriu. - Será que eu posso ajudar?
- Ajudar? Ajudar com o que, vó?
- Parece que temos um problema aqui, não é mesmo? – a avó sentou-se ao lado dela.
     - Ai, vó... – Diva se levantou. – Eu não vim aqui para falar dos meus problemas, eu vim para...
     - Esquecê-los! – a avó terminou a frase. - Foi o que você me escreveu na carta. Que você quer dar um tempo no seu trabalho, na faculdade, na sua mãe e até no seu noivo...  – se aproximou da neta.  - Diva, eu sei que ficamos tanto tempo separadas, só nos vimos uma única vez e num dia tão triste para mim, mas todo esse tempo longe, em nenhum instante eu deixei de pensar em você, de te amar, de ser a sua avó. Eu queria que você soubesse disso. Se você quiser me contar alguma coisa, eu estou aqui. Eu vou te ouvir. Não tenha medo. Não vou te julgar. Talvez eu possa até ajudar de alguma maneira, minha filha!

E Diva sabia que ela podia. Na verdade, não tinha sido para isso a fuga? Quando se foge, ainda que não se anuncie é um pedido de socorro: Vem me salvar. Vem me ajudar. Me dê a sua mão. Não me deixe fugir sozinha. Era isso o que ela pedia. Em silêncio, mas pedia.

 - É tudo aquilo mesmo que eu escrevi na carta, vó. – Diva respondeu saindo da escada e indo para o sofá.  – Minha mãe...  Nós não nos damos bem, sabe? A gente briga o tempo todo. Ela não gosta de mim. – e as lágrimas escorreram pelo rosto delicado da menina moça. Ela secou os olhos, lembrando que aquela era a primeira vez em toda a sua vida que chorava na frente de alguém. Sempre disfarçou suas tristezas e sempre escondeu as lágrimas, mas ali, na frente da avó era tão fácil chorar. Era tão fácil ser ela de verdade. Sem máscaras. - A minha mãe só se preocupa consigo mesma, com o que as pessoas vão pensar dela, o quanto de dinheiro tem os seus amigos, quantos cartões de crédito tem os seus namorados... A superficialidade dela me irrita todos os dias da minha vida.
    - Ela sempre foi assim, Diva. – e acariciou novamente os cabelos da neta. – Desde jovem.
     - Vó... – Diva virou-se para ela olhando-a nos olhos, implorando. - Então me diz o que aconteceu de verdade? Por que vocês duas não se falam? Porque se eu conseguir entender o que aconteceu com vocês, talvez eu consiga entender porque ela me odeia tanto!


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